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sábado, 29 de setembro de 2012

Desabafo: um discurso de liberdade


Que esse seja um texto livre de exigências, que possa ser tão incoerente quanto é possível e que dure o quanto tiver de durar, porque, de tempos em tempos eu preciso disso, desse resgate de mim mesma, desses desabafos escritos que levam todo o peso dos meus ombros, sem a menor pretensão de seguirem ordem de qualquer natureza. Sinto falta de algumas coisas, tomei decisões, saí sozinha e, mais uma vez, exercitei aquela capacidade que todo mundo tem de se reinventar. Então é sobre isso que quero escrever agora.

O que aconteceu com a simplicidade? Por onde andam aqueles amantes fáceis, de interesses comuns e descomplicados? Eu me adapto até bem ao mundo reconfigurado de hoje em dia, mas ainda sinto falta daqueles amigos loucos de infância com quem você pode papear sobre absolutamente tudo, não importa o quão ridículo e fora de contexto pareça. 

Quero alguém com quem partilhar daquela mania incorrigível de falar a primeira coisa que vem à cabeça, de gargalhar do que aparentemente é regular. Esses dias de hoje exigem uma racionalidade que tolhe toda e qualquer espontaneidade. Não quero mais essa exigência moderna podando meus sonhos, ditando quem eu devo ser ou sobre o que devo falar. Recuso-me a abrir mão dessa minha insanidade tão saudável. 

Cadê aquele amigo que pergunta como você tem passado e se quer ir agora pegar um ônibus e rodar pela cidade sem destino definido? Sinto falta desse interesse nas coisas espontâneas, sinceras e sem egoísmo. Quero rir mais, quero me importar menos com convenções e horários. Será que isso também é constrangimento? Será que é pecado? 

Tomei uma decisão para os próximos anos da minha vida: se eu quiser sair, eu saio. Não vou nunca mais depender de alguém que queira ir comigo. Já dei o primeiro passo e senti uma liberdade e um senso de independência maravilhosos. No dia anterior eu tive um sonho que me fez acordar feliz. Sou saudável, tenho pais que amo e que me amam, sou irrevogavelmente apaixonada por livros e filmes, tenho orgulho da minha seleção musical, sou uma cidadã com direitos e aproveito minha liberdade da maneira mais prudente possível. Não consigo pensar em um só motivo para ser infeliz. Eu estava feliz andando sozinha, fazendo as compras que queria e checando os filmes disponíveis no cinema. Com toda certeza essa foi uma atitude inicial para uma série de outras ao longo da minha vida. Foi a primeira vez em que saí sozinha sem estar contrariada por isso. 

Eu completo 19 anos mês que vem e preciso urgentemente perder o medo de me transformar em mulher. Escrevendo isso eu acho até graça. Uma mulher de um metro e cinquenta e seis, cinquenta quilos e quem as pessoas confundem frequentemente com uma garota de catorze anos. Eu reclamo com um riso sem graça e elas sorriem dizendo que, no futuro, eu vou adorar parecer mais nova. Talvez elas até tenham razão hahaha. 

A racionalidade, a pressa ou a exigência social de estar constantemente em busca de alguém não vão mais me assombrar. Pode ser que eu ainda precise me enquadrar a certas exigências modernas, mas não vou deixar que isso tome todo o meu tempo, que me perturbe o sono. Chega de viver a vida regrada de uma sociedade inteira e sufocar a criatividade, a espontaneidade e a liberdade. Quero resgatar a mim mesma, porque já estou em linha reta por tempo demais. Já passou da hora de romper amarras, olhar ao redor, poupar o travesseiro de reflexões circulares que não me levam a lugar nenhum. É tempo de brindar a mim mesma e aos peculiares aspectos de ser fernanda.